Porto Cidade Amor Devagar nov18
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Porto, cidade, amor. - miguel sousa azevedo

Passaram-se há umas semanas 20 anos de chegar ao Porto. A cidade que desconhecia e de que gostava. A cidade que descobri estar-me nos ossos e na pele. Mesmo sem quase lá ter estado.
Cheguei, curioso e já fora de tempo. Sem me deslumbrar, mas a descobrir cada recanto. E a descobrir que era também dali. Sem lá ter nascido.
Embrenhei-me nas ruas e na pronúncia. Nos cheiros de castanhas e de inverno. Na nortada que batia no coração. Sem avisar.
Com os dias, decorei o Porto de ponta a ponta. Passo a passo, parecia reescrever a vida, com a minha sempre presente noção de viver na época errada.
Nem tudo foram doces, nem tudo sorriu. E muitas vezes na cidade escureceu a saudade do mar, na mais confusa partilha de sentidos. Que ainda hoje perdura.
Naquele Porto, naquele rio, naquele manjerico cujo cheiro ficou sempre nas mãos. Mesmo se nem me lembro de onde o afaguei.
Era ainda um Porto de buracos e dúvidas. De gente só de lá, amiúde polvilhada de forasteiros. Curiosos, como eu. Distante ainda dos magotes de mochilas em selfie-control...
A cidade pequena, mas profunda, foi-se engalanando no novo século. O calendário correu. A vida abriu-se e fechou-se como um velho relógio de bolso. Cuja corrente se quebrara.
O Porto mudou-se e falou estrangeiro. O Porto tabelou-se e alojou-se a cada esquina. O Porto cresceu e envaideceu loucamente. Sem tirar os olhos à foz de cada lágrima no peito.
A cidade deixou de ter um entardecer solitário. E passou a ter o acordar da noite e da movida. A roupa cinzenta caiu dos varais das varandas. Para a elas subirem balões de legendas e de cor.
O burgo de histórias e batalhas deu-se ao mundo em wifi. Alcovitou-se em vouchers de dias com temperos e espumas. Mas agarrou-se ao basalto da fé, para não escorregar no musgo que limpou das fachadas.
Do ar, da margem, do banco rente ao chão quente, numa chávena sem horário. O Porto bate agora asas universais. Não deixou de ser que era. Grita é golo com tons variados. Tabelados e inacessíveis. Mas continua a ser a minha terra de amor...

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